Marcos Leonardo: esposa acusa 'sistema' após não ser convocado e fala em 'corrupção em todo lugar'

Klewder Silva
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Marcos Leonardo: esposa acusa 'sistema' após não ser convocado e fala em 'corrupção em todo lugar'

O desabafo que incendiou as redes

Uma frase de 15 segundos no Instagram bastou para acender um incêndio: “É corrupção em todo lugar”. A acusação, feita pela esposa de Marcos Leonardo, veio junto de uma foto do atacante e um questionamento direto à Seleção Brasileira: como o artilheiro do Mundial de Clubes e eleito, segundo ela, o melhor brasileiro da temporada com 31 gols fica fora das últimas convocações?

O recado caiu como uma bomba no debate sobre critérios de convocação. A família do jogador, visivelmente frustrada, enxerga injustiça na decisão e um sistema que, na visão deles, pouco mudou. A referência à Legião Urbana — “corrupção em todo lugar” — conectou uma queixa pessoal a uma ferida antiga do futebol brasileiro: a desconfiança sobre como se decide quem veste a amarelinha.

Nos bastidores, a leitura é simples: quem marca com regularidade, aparece nos grandes palcos e entrega desempenho consistente espera, no mínimo, avaliação justa. E os números recentes de Marcos Leonardo — 31 gols na temporada e a condição de destaque no Mundial de Clubes — alimentam a tese de que havia espaço para ele ser testado.

Até aqui, silêncio do outro lado. A CBF não se manifestou publicamente sobre o desabafo. Também não detalhou parâmetros da escolha para a posição de centroavante nas listas mais recentes da comissão técnica. Essa ausência de explicação formal abre margem para leituras de todos os tipos — da questão tática à suspeita de favorecimentos.

O que está em jogo: critérios, histórico e mercado

Convocação não é algoritmo, e isso complica. Há gol que pesa mais do que outro. Contexto importa: adversário, competição, momento do time, função sem bola, encaixe tático. Técnicos escalam menos “os 23 melhores” e mais “os 23 que fazem sentido juntos”. É frustrante para quem está voando, mas é assim que muitos treinadores defendem suas listas.

No funil da Seleção, a concorrência é de elite. O Brasil tem centroavantes e atacantes de lados em alto nível dentro e fora da Europa. Em qualquer janela, nomes como os que brilham em ligas inglesa, espanhola e brasileira disputam espaço em duas ou três vagas para a função de 9. Mesmo quem faz muitos gols pode ficar fora se a comissão técnica buscar, por exemplo, um atacante que pressione mais a saída de bola, retenha pivô ou ataque o espaço de forma específica.

Há ainda fatores discretos e que dificilmente viram nota oficial: ritmo de jogo recente, histórico médico, minutos em partidas-chave, adaptação a um novo clube e liga, química com possíveis parceiros de ataque, e até o perfil emocional para jogos grandes. Tudo isso entra na planilha de quem convoca, ainda que não esteja escrito no post do X da seleção.

Seja como for, o desabafo da esposa de Marcos Leonardo toca numa tecla sensível: transparência. Sem explicações sobre por que A entrou e B ficou fora, o torcedor preenche o vazio com narrativa. E o futebol vive de narrativas. Quando a crítica vem de dentro da casa do jogador, o barulho dobra, vira pauta e movimenta bastidores.

O peso simbólico da frase “corrupção em todo lugar” não é por acaso. O futebol brasileiro carrega um histórico de escândalos que abalam a confiança pública. Ex-dirigentes da CBF já foram investigados e punidos em casos relacionados ao chamado “FIFAgate” na década passada. Esse passado recente faz com que qualquer suspeita, mesmo sem provas no caso específico da convocação, encontre terreno fértil para crescer nas redes.

Importante separar as caixinhas: acusações genéricas não equivalem a evidências sobre uma lista de convocados. Ao mesmo tempo, a exigência por critérios claros é legítima. Transparência protege todo mundo — jogador, treinador e instituição. Uma política mínima de comunicação que explique “o que se busca em cada posição” já reduziria ruído e diminuiria a sensação de opacidade.

Do lado do atleta, a frustração é compreensível. Atacantes vivem de gol e reconhecimento. Para quem mira a Seleção, poucos torneios dão tanta vitrine quanto o Mundial de Clubes. Marcar, decidir e aparecer nesse palco costuma acelerar convites. Não ter a chance de, pelo menos, ser testado em amistosos ou em janelas de observação naturalmente joga gasolina no debate.

Também há ângulo de mercado. Uma convocação muda patamar de negociação, valoriza passe e abre portas em clubes de primeira prateleira. A expectativa de uma chance após uma temporada de números fortes não é só sonho de infância — tem impacto no contrato, na carreira e na vitrine. Quando ela não vem, o entorno pressiona, familiares se posicionam e empresários calculam próximos passos.

O caso expõe outro ponto: a distância entre a leitura pública de “mérito” e a régua técnica do selecionador. O torcedor vê gol, bola na rede e ranking de artilharia. O técnico vê fase, função, encaixe e, às vezes, escolhe um 9 que finaliza menos mas organiza melhor o time. Essas escolhas são impopulares quando o artilheiro da vez fica de fora — e viram combustível para crises de comunicação.

O debate nas redes reflete isso. Houve quem defendesse a convocação imediata pelo volume de gols e desempenho em torneios internacionais. Houve quem ponderasse que a fila tem outros nomes consolidados e que testes precisam ser graduais, sem atropelar processos internos. No meio, a maioria só quer entender “por quê”. Falta de explicação vira indignação.

O episódio também toca a seleção por dentro. Declarações públicas de familiares costumam incomodar comissões técnicas, que preferem resolver tudo porta adentro. Ao mesmo tempo, é o mundo como ele é: redes sociais dão voz e escala a quem está próximo dos protagonistas. E quando o tema é Seleção, a repercussão é imediata.

O que pode acontecer daqui para frente? Em campo, o caminho é conhecido: manter o ritmo, empilhar minutos, participar de jogos grandes e seguir entregando em competições que pesam. Fora dele, reduzir ruído, deixar o futebol falar e aguardar as próximas listas. Com a camisa do clube, cada gol é também um argumento.

Para a CBF, fica o desafio de sempre: comunicar melhor. Sem revelar segredos táticos ou criar constrangimento público, dá para explicar critérios gerais e o que se observa em cada janela. Quando o torcedor entende a lógica, o debate se eleva. Sem isso, qualquer ausência vira suspeita — e qualquer desabafo vira trending.

Em resumo, a chama acesa pelo post da esposa de Marcos Leonardo não se apaga com uma resposta protocolar. O tema mexe com confiança, mérito e a relação do torcedor com quem o representa. Enquanto não houver clareza, a bola vai rolar em campo — e a desconfiança, fora dele.

Fatores que frequentemente pesam em convocações, além de gols:

  • Função tática: pressão, pivô, mobilidade e entendimento coletivo.
  • Contexto dos gols: força dos adversários e fase da competição.
  • Forma física e histórico recente de lesões ou desgaste.
  • Minutos em jogos decisivos e consistência ao longo da temporada.
  • Adaptação a clube e liga, inclusive idioma e rotina de viagens.
  • Química com possíveis parceiros de ataque já presentes na Seleção.

Enquanto o relógio corre para as próximas convocações, a dúvida segue: haverá ajuste de rota ou a comissão técnica permanecerá fiel à linha atual? A resposta, como sempre no futebol, virá em duas frentes — na lista e no gramado.